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 Ferreira Gullar critica , na Folha, lei que desestimula a internação de doentes mentais

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Edson
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MensagemAssunto: Ferreira Gullar critica , na Folha, lei que desestimula a internação de doentes mentais   Qua 15 Abr 2009, 09:27

Domingo, Abril 12, 2009



FERREIRA
GULLAR

Uma lei errada





FOLHA DE S PAULO





Campanha contra a internação de doentes mentais é
uma forma de demagogia


ACAMPANHA contra a internação de doentes mentais foi inspirada por um médico
italiano de Bolonha. Lá resultou num desastre e, mesmo assim, insistiu-se em
repeti-la aqui e o resultado foi exatamente o mesmo.
Isso começou por causa do uso intensivo de drogas a partir dos anos 70. Veio no
bojo de uma rebelião contra a ordem social, que era definida como sinônimo de
cerceamento da liberdade individual, repressão "burguesa" para
defender os valores do capitalismo.
A classe média, em geral, sempre aberta a ideias "avançadas" ou
"libertárias", quase nunca se detém para examinar as questões, pesar
os argumentos, confrontá-los com a realidade. Não, adere sem refletir.
Havia, naquela época, um deputado petista que aderiu à proposta, passou a
defendê-la e apresentou um projeto de lei no Congresso. Certa vez, declarou a
um jornal que "as famílias dos doentes mentais os internavam para se
livrarem deles". E eu, que lidava com o problema de dois filhos nesse
estado, disse a mim mesmo: "Esse sujeito é um cretino. Não sabe o que é
conviver com pessoas esquizofrênicas, que muitas vezes ameaçam se matar ou
matar alguém. Não imagina o quanto dói a um pai ter que internar um filho, para
salvá-lo e salvar a família. Esse idiota tem a audácia de fingir que ama mais a
meus filhos do que eu".
Esse tipo de campanha é uma forma de demagogia, como outra qualquer: funda-se
em dados falsos ou falsificados e muitas vezes no desconhecimento do problema
que dizem tentar resolver. No caso das internações, lançavam mão da palavra
"manicômio", já então fora de uso e que por si só carrega conotações
negativas, numa época em que aquele tipo hospital não existia mais. Digo isso
porque estive em muitos hospitais psiquiátricos, públicos e particulares, mas
em nenhum deles havia cárceres ou "solitárias" para segregar o
"doente furioso". Mas, para o êxito da campanha, era necessário levar
a opinião pública a crer que a internação equivalia a jogar o doente num
inferno.
Até descobrirem os remédios psiquiátricos, que controlam a ansiedade e evitam o
delírio, médicos e enfermeiros, de fato, não sabiam como lidar com um doente
mental em surto, fora de controle. Por isso o metiam em camisas de força ou o
punham numa cela com grades até que se acalmasse. Outro procedimento era o
choque elétrico, que surtia o efeito imediato de interromper o surto
esquizofrênico, mas com consequências imprevisíveis para sua integridade
mental. Com o tempo, porém, descobriu-se um modo de limitar a intensidade do
choque elétrico e apenas usá-lo em casos extremos. Já os remédios neuroléticos
não apresentam qualquer inconveniente e, aplicados na dosagem certa,
possibilitam ao doente manter-se em estado normal. Graças a essa medicação, as
clínicas psiquiátricas perderam o caráter carcerário para se tornarem
semelhantes a clínicas de repouso. A maioria das clínicas psiquiátricas
particulares de hoje tem salas de jogos, de cinema, teatro, piscina e campo de
esportes. Já os hospitais públicos, até bem pouco, se não dispunham do mesmo
conforto, também ofereciam ao internado divertimento e lazer, além de ateliês
para pintar, desenhar ou ocupar-se com trabalhos manuais.
Com os remédios à base de amplictil, como Haldol, o paciente não necessita de
internações prolongadas. Em geral, a internação se torna necessária porque, em
casa, por diversos motivos, o doente às vezes se nega a medicar-se, entra em
surto e se torna uma ameaça ou um tormento para a família. Levado para a
clínica e medicado, vai aos poucos recuperando o equilíbrio até estar em
condições que lhe permitem voltar para o convívio familiar. No caso das
famílias mais pobres, isso não é tão simples, já que saem todos para trabalhar
e o doente fica sozinho em
casa. Em alguns casos, deixa de tomar o remédio e volta ao
estado delirante. Não há alternativa senão interná-lo.
Pois bem, aquela campanha, que visava salvar os doentes de "repressão
burguesa", resultou numa lei que praticamente acabou com os hospitais
psiquiátricos, mantidos pelo governo. Em seu lugar, instituiu-se o tratamento
ambulatorial (hospital-dia), que só resulta para os casos menos graves,
enquanto os mais graves, que necessitam de internação, não têm quem os atenda.
As famílias de posses continuam a por seus doentes em clínicas particulares,
enquanto as pobres não têm onde interná-los. Os doentes terminam nas ruas como
mendigos, dormindo sob viadutos.
É hora de revogar essa lei idiota que provocou tamanho desastre.


Última edição por Key maker em Ter 05 Maio 2009, 08:24, editado 2 vez(es)
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Edson
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MensagemAssunto: Uma crítica ao artigo feita por professor da UnB   Qua 15 Abr 2009, 09:30

Dois dias depois o site da UnB publica esta entrevista.
Disponível em: http://www.unb.br/noticias/unbagencia/unbagencia.php?id=1547




Em entrevista à UnB Agência, Ileno Izídio, professor do
Instituto de Psicologia, aponta os erros cometidos por Ferreira Gullar e
questiona os motivos do poeta para criticar uma reforma pedida pelos movimentos
sociais há mais de 20 anos.




UNB AGÊNCIA - É errado internar pacientes com
doenças mentais?

IZÍDIO -
O artigo do Ferreira Gullar está
completamente equivocado. Ele não deve nem ter lido a Lei 10.261/02. A lei
propõe o desmonte dos hospitais psiquiátricos tradicionais e transformar esses
leitos em leitos para internação em hospitais gerais, em atendimentos nos
centros de atenção psicossocial (CAPs), em centros de convivência e em
residências terapêuticas. É óbvio que ele deve ter sido beneficiado com a
internação dos filhos dele, porque gente louca dentro de casa incomoda.


UNB AGÊNCIA - O poeta chamou o deputado que propôs a lei
de “cretino”, porque não imagina o quanto dói a um pai ter que internar um
filho, devido a ameaças de agressão.

IZÍDIO -
Nem todo esquizofrênico é violento, nem
todos os casos precisam de internação, e a lei propõe que nesses casos a internação
seja feita em hospitais gerais. Lá a enfermaria psiquiátrica vai cuidar dele
durante a crise. Depois o paciente volta para a sociedade e para os
equipamentos que a lei propõe: CAPs, hospitais-dia. A idéia é que a internação
dê conta da crise. Controlada a crise, um mês, dois meses depois, usa-se outros
mecanismos.


UNB AGÊNCIA - No artigo, diz-se que o tratamento
ambulatorial só serve para os casos menos graves.

IZÍDIO -
Ferreira Gullar está ignorando o lado da
inserção social do doente. Se ele tivesse um filho em crise e precisasse
interná-lo, o filho ficaria 30 dias no hospital geral, e depois seria
encaminhado a um CAP perto da casa deles. O Ferreira Gullar teria que ir na
terapia familiar conversar sobre o problema do filho, e não simplesmente delegar
o problema para os outros. Isso é uma coisa completamente diferente de exclusão
do doente do convívio em
sociedade. O poeta está criticando a lei, mas está esquecendo
a sua própria responsabilidade sobre os filhos esquizofrênicos. Ele prefere
delegar para os hospitais psiquiátricos. Vai manter o filho eternamente dentro
do hospital?


UNB AGÊNCIA - O senhor participou do movimento que
apoiou a Reforma Psiquiátrica. Como se deu essa quebra de paradigma, de
diminuir as internações?

IZÍDIO -
O que está errado no princípio da internação
é que a crise e o surto psicótico cessam, e a pessoa continua internada. A
luta do movimento social vem desde 1987. O Ferreira Gullar não sabe disso,
porque ele não participou do movimento. Quando ele critica a lei, ele critica o
movimento social. Ainda existem mais de 20 hospitais psiquiátricos no país, ao
contrário do que o artigo diz, e são terríveis, manicômios tradicionais. Gullar
não tem conhecimento da realidade, conhece só a realidade do filho dele. Esses
hospitais já foram denunciados pelo Conselho Federal de Psicologia e pela Ordem
dos Advogados do Brasil.



UNB AGÊNCIA - O senhor diz que Ferreira Gullar
critica a lei sem conhecê-la. Então qual seria a reivindicação?

IZÍDIO -
Eu gostaria de ter atendido um dos filhos do
Ferreira Gullar em momentos de crise, para saber quem é o Ferreira Gullar como
pai. Eu trabalho com famílias e sei bem como a família constrói a loucura nas
pessoas. Até que ponto existe a responsabilidade da família nos problemas que
se quer delegar aos hospitais? Eu acho que o poeta precisa entrar em um
processo de entender como os problemas mentais dos filhos se construíram com a
participação dele. A pessoa que mais pode ajudar um filho é o pai, que conhece
mais os filhos que os médicos do hospital. Eu me pergunto: quem o poeta está
defendendo?
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Edson
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MensagemAssunto: Re: Ferreira Gullar critica , na Folha, lei que desestimula a internação de doentes mentais   Seg 20 Abr 2009, 17:12

Falta leito psiquiátrico na rede, diz escritor

Dom, 19 de Abril de 2009 22:04

Folha de São Paulo - dA Reportagem Local
Vice-presidente de ONG para portadores de esquizofrenia elogia mudanças, mas acha que hospital comum tem que ter vaga
Jorge Cândido de Assis, portador de esquizofrenia, e que já foi internado para tratamento, é um dos autores de livro sobre a doença
A reforma psiquiátrica brasileira trouxe experiências positivas na aposta pelo atendimento comunitário em detrimento das internações hospitalares na ampla forma como ocorriam há duas décadas, mas ainda há problemas. A opinião é de Jorge Cândido de Assis, 45, vice-presidente da Abre (Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Esquizofrenia) e um dos autores do livro "Entre a Razão e a Ilusão: Desmistificando a Loucura".


Ele, que é portador de esquizofrenia -doença em que o paciente enfrenta fases de não distinguir realidade do que acredita ser real-, aponta que os Caps (Centro de Assistência Psicossocial) são uma boa opção de tratamento fora das crises. Mas aponta desestruturação e falta de leitos psiquiátricos em hospitais gerais, o que resulta em pacientes nas macas em hospitais.
Na reforma psiquiátrica foram fechados mais de 80 mil leitos psiquiátricos desde 1989 -hoje são 36,7 mil. Em 2001, uma lei legitimou a base da reforma: internação só em último caso. No domingo, o poeta Ferreira Gullar, em sua coluna na Folha, reascendeu a polêmica criticando a dificuldade dos pacientes em conseguir internação. Classificou como desastre a campanha anti-internação e defendeu a revogação da lei.
Leia a entrevista com Assis.

FOLHA - Como vê as mudanças?
JORGE CÂNDIDO DE ASSIS - A ideia do tratamento em Caps é positiva, pois o paciente não fica confinado. É o local ideal para tratar fora da crise. Na esquizofrenia, 85% dos pacientes têm o transtorno pelo resto da vida, e esse acompanhamento é importante.

FOLHA - E nas crises ou fases agudas?
ASSIS - Os hospitais gerais têm serviços de diferentes especialidades, o que é um fator positivo, pois alguns pacientes não têm apenas o transtorno mental. O ideal seria ter mais leitos de psiquiatria nesses hospitais [havia apenas 2.568 em 2008 no país]. Como não há leitos suficientes, os hospitais psiquiátricos acabam acolhendo essas pessoas. Acredito que juntar pacientes em hospitais psiquiátricos, por um período longo, não é bom. Esse conceito historicamente foi construído.

FOLHA - Na associação, qual o sentimento dos pacientes quanto aos tratamentos hoje?
ASSIS - Tem pessoas que conseguem bons atendimentos. Uma dificuldade por parte de quem vive a doença é aceitar os tratamentos. Muitas vezes a pessoa não aceita ir ao médico. Outra dificuldade é aceitar que as doenças merecem cuidado a longo prazo. O que pode ocorrer por características dos sintomas da doença, a pessoa se isola, tem dificuldade de comunicação. Só a metade adere.

FOLHA - Tem gente que reclama?
ASSIS - Sim. Por exemplo, você chega ao PS psiquiátrico de hospital geral. Existe uma rede. Onde tiver vaga você é encaminhado. As pessoas ficam dias em macas até a transferência porque não há vagas.

FOLHA - Como vê os hospitais psiquiátricos?
ASSIS - Dentro dessa denominação há diferentes hospitais. Tanto os manicômios quanto os bons hospitais. Há a Associação Hospitalar Thereza Perlatti, em Jaú [296 km de SP], que é excelente. Mas, em geral, é difícil nesse momento da nossa história dizer qual hospital psiquiátrico é bom ou não porque a qualidade varia muito. Em um hospital psiquiátrico que não é bom, é mais fácil haver algum tipo de tratamento desumano, como punições, confinamento. Essa é uma discussão antiga, que vem da Declaração de Caracas, que mostra que esse tipo de atendimento isola.

FOLHA - Como vê a participação da atenção básica no atendimento?
ASSIS - São fundamentais na medida em que os agentes de saúde conhecem os problemas da comunidade. Mas há problemas. Todas as unidades básicas estão preparadas? Não.

FOLHA - Há estigma?
ASSIS - Sim. No sentido de que há pessoas que pensam que transtorno mental é menos importante que outras doenças.

FOLHA - Você já se tratou em um hospital psiquiátrico?
ASSIS - Sim, recebi um bom atendimento pelo SUS na Santa Casa de São Paulo, em 2000. Estive internado em uma clínica particular em 1987, e o atendimento também foi bom. Ter sido internado no meu caso foi fundamental.

FOLHA - A reforma atendeu a demanda por tratamentos?
ASSIS - Não conheço nenhum relatório com os dados dos atendimentos do sistema.
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MensagemAssunto: Re: Ferreira Gullar critica , na Folha, lei que desestimula a internação de doentes mentais   Ter 05 Maio 2009, 08:22

Quando me deparei com o artigo do Ferreira Gullar fiquei perplexo. Nem tanto pelo conteúdo, críticas como esta já foram muito comuns. Talvez tenha me surpreendido a oportunidade: Por que agora? Por que ele?
Deixei os dias passarem para ver a repercussão. Convenhamos, pequena.
Afinal de contas , o artigo se encaixa melhor na categoria de desabafo do que de crítica fundamentada. A postagem seguinte mostra o quanto estava baseada no senso comum.O que não surpreende já que se trata de um poeta , pai de rapazes esquizofrênicos.Suas declarações tem mais peso por vir de quem veio do que pelo acerto delas próprias.
Por fim, com a terceira postagem (da própria Folha) talvez explique algo do que pode ter motivado o desabafo: a persistente precariedade de recursos em saúde mental.A falta de investimentos e o mau uso dos recursos existentes nada tem a ver com a reforma psiquiátrica a não ser pelo fato de que era denunciada por ela própria desde o princípio. Um dos protestos veiculados era justamente contra a destinação preferencial das verbas para os hospitais psiquiátricos (caros e ineficientes) em detrimento dos recursos extra –hospitalares.
Por fim, não gostaria de deixar a impressão de que achei impróprio o artigo. Tomado em sua essência , acho que serve de alerta para todos os envolvidos nas movimentações institucionais e sociais acima descritas. Sejam partidários ou sejam contra –partidários destes embates, suas ações tem conseqüências e podem trazer sofrimento a quem está na outra ponta.E isto não pode ser desconsiderado.


KM
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